Marcelo Freixo: Crise ética do PT e derrota eleitoral devem estimular reinvenção

Originalmente publicado em 20 de novembro de 2016, na Folha de São Paulo.

Mais do que resistir diante da derrota eleitoral sofrida neste ano, a esquerda brasileira precisa aprender a reexistir. Se a resistência pode ser resumida à luta pela própria conservação e sobrevivência, algo que a esquerda soube fazer em todo o mundo ao longo de sua história, a reexistência eleva esse esforço a outro patamar.

Reexistir é se reinventar, é ressignificar e dar outro sentido à própria existência. É pensar não somente no que é, imediatamente, mas também no que será –sem esquecer os erros e os acertos cometidos na caminhada.

Esse é o desafio e a principal arma da esquerda no Brasil e no mundo, que também assiste ao avanço de projetos políticos de direita. Nos Estados Unidos, o ultraconservador Donald Trump se elegeu, mas tivemos o fenômeno Bernie Sanders, senador pelo Estado de Vermont.

Único parlamentar a se declarar socialista no Congresso americano, Bernie disputou as prévias do Partido Democrata e ameaçou a candidatura de Hillary, mobilizando a juventude e criando um novo sentimento de pertencimento político em meio à crise.

Na Inglaterra, temos o crescimento da presença de jovens no Partido Trabalhista, movimento animado pela eleição do deputado de esquerda Jeremy Corbyn para a presidência da legenda, no ano passado. Corbyn defende o fim dos bombardeios à Síria e ao Iraque, o desarmamento nuclear e o aumento dos investimentos do Estado. Na Espanha, o Podemos vem dando novo fôlego à esquerda e alimentando outra forma de fazer política.

AVANÇO DA DIREITA

Mas voltemos ao Brasil. Por aqui, a vitória eleitoral conservadora nas eleições municipais tem como pano de fundo a crise e a derrocada do ciclo petista no Palácio do Planalto, que culminou com o golpe e o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Crise essa que não se restringe ao PT. Ela atinge toda a esquerda, mesmo a que não fez parte do governo.

Outro aspecto sobre o qual precisamos nos debruçar ao analisar o resultado eleitoral deste ano é a grande quantidade de votos brancos e nulos e abstenções. Creio ser um erro atribuir o não voto à crescente despolitização.

O fenômeno é, na verdade, a expressão de um posicionamento político revelador da falta de identidade e de pertencimento da população em relação ao sistema democrático.

Nossa análise pode partir das manifestações de junho de 2013. Desde então, muitos dos questionamentos e inquietações difusas que fizeram milhões de pessoas tomarem as ruas e colocarem em xeque o sistema político não foram respondidos, nem sequer tratados como problema. E o cerne da questão é a sensação de alheamento, distanciamento e sequestro da soberania popular pelo conluio entre oligarquias políticas e econômicas. Democracia mutilada pelos conchavos.

É nesse espaço, em que se misturam a crise do partido que por décadas figurou como grande esperança da esquerda brasileira e o aprofundamento da sensação de desenraizamento político, que a direita avançou no país.

Em termos gerais, não há novidades importantes nas características e ideias que norteiam a atuação dessa direita que chega novamente ao poder: liberalismo e conservadorismo sempre foram uma estranha mistura no Brasil. Ela une a defesa de uma economia liberal, de redução do papel do Estado, à exaltação de valores e costumes conservadores, que devem ser estritamente observados.

Nesse sentido, se na economia o Estado deve se recolher, em questões morais e comportamentais ele deve agir para garantir a sua conservação: daí o debate –ou o cerceamento dele– sobre a concepção de família, a política de drogas, o aborto e as barreiras criadas no Congresso à ampliação dos direitos da população LGBT e das mulheres.

A partir da avaliação desse cenário e dos seus significados para o futuro da democracia brasileira, faz-se necessário analisarmos a disputa pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Não apenas o seu resultado, mas todo o processo da campanha eleitoral. Na capital fluminense, assumimos o desafio de reexistir e de propor uma nova forma de fazer política para a esquerda.

NOVA POLÍTICA

Tivemos apenas 11 segundos de televisão e rádio no programa eleitoral e somente uma inserção de 30 segundos por dia no primeiro turno. Mesmo assim, com todas as limitações e nadando contra a maré conservadora, a esquerda chegou ao segundo turno derrotando o PMDB, partido que controla a máquina municipal e estadual e está no poder desde 2007, quando Sérgio Cabral assumiu o primeiro mandato como governador.

Fomos derrotados eleitoralmente, mas saímos vitoriosos na construção de uma nova forma de fazer política. Numa eleição não se disputam apenas os votos, mas também o sentido e a narrativa da política e da democracia. Nenhuma campanha vencedora eleitoralmente conseguiu colocar 10 mil pessoas em praça pública, como fizemos na Cinelândia no dia 30 de outubro.

O avanço dessa nova política aconteceu porque fomos capazes de reexistir e mostrar que é possível manter o compromisso ético e disputar para valer o governo de uma grande cidade. Em meio à crise, ressignificamos a nossa existência e experiência através do diálogo, o que alimentou o sentimento de pertencimento e participação em milhões de pessoas que se engajaram nesse projeto.

O nosso programa de governo foi pensado ao longo de dois anos e elaborado durante dezenas de encontros que reuniram mais de 5.000 pessoas espalhadas por todas as regiões do Rio de Janeiro.

Além da contribuição de especialistas e pesquisadores de diversas áreas, nossas propostas para a cidade se basearam nas necessidades, nos desejos e nos conhecimentos de quem vive o dia a dia da capital.

A identificação das pessoas com o projeto se reflete no financiamento coletivo da campanha, que bateu o recorde de maior arrecadação via internet da história do país. Foram coletados ao todo R$ 1,8 milhão, com doações cujo valor médio foi de R$ 80. Quase 5.000 dos cerca de 14 mil doadores não vivem no Rio. É uma lição aos que defendem a volta do financiamento empresarial.

Todo esse esforço de mobilização cotidiana e diálogo com milhares de pessoas fez com que crescêssemos nas regiões mais pobres da cidade, principalmente nas zonas oeste e norte. De cada dez eleitores que votaram em nossa candidatura, cinco eram da zona norte, três da zona oeste e dois da zona sul e do centro. A votação acompanhou de maneira proporcional a distribuição da população pelas regiões da cidade.

Mesmo com o avanço de uma agenda conservadora nos municípios e no país, tanto no Legislativo quanto no Executivo, o PSOL conseguiu eleger um parlamentar gay, cuja principal bandeira é a promoção dos direitos da população LGBT, e uma mulher negra da favela, defensora dos direitos humanos. Temos a segunda maior bancada da Câmara Municipal, com seis membros. É um sinal de que, apesar da derrota eleitoral, essas pautas continuam vivas.

TRABALHO DE BASE

As eleições deste ano, principalmente a carioca, são também um alerta à esquerda sobre a necessidade de retomar o trabalho de base junto à população mais pobre, por meio de um diálogo permanente e generoso, ouvindo mais do que falando, com menos certezas e mais desejos de conhecer e aprender.

O mesmo vale para a necessidade de superar o preconceito que parte da esquerda nutre pelos seguidores de igrejas pentecostais e neopentecostais. É urgente aprofundarmos o diálogo com os evangélicos e suas expectativas, sem tratar a religião como um problema em si, mas como uma forma de alimentar utopias.

Carlito Maia, publicitário e um dos fundadores do PT, dizia que quando a esquerda começa a contar dinheiro, converte-se em direita. Se a esquerda se contentar com as facilidades do pragmatismo e recorrer às velhas práticas de seus adversários, a luta pela construção de um mundo mais justo perde o sentido. Foi o que ocorreu com boa parte do PT.

Os acertos petistas no campo social, principalmente em sua política de redução das desigualdades e de promoção da cidadania, não apagam seus graves erros no campo ético e político. Equívocos que se aprofundaram justamente pela falta de autocrítica. A esquerda não pode deixar de repensar suas práticas e seus projetos, dentro ou fora de qualquer governo.

A nova política não está num único partido, são muitas as formas de reexistência que se espalham pelas cidades, e cabe a nós compreendê-las. Nosso desafio é unir lutas tão diversas que têm como essência o diálogo e a defesa da democracia como princípio e meio para transformar a realidade.

MARCELO FREIXO, 49, professor de história, é deputado estadual (PSOL-RJ) e foi candidato à Prefeitura do Rio.

PSOL Carioca

Site oficial do Diretório Municipal do Partido Socialismo e Liberdade da Cidade do Rio de Janeiro #50

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