Feminismo e Política nas eleições de 2016

Por Luciana Boiteux, Marielle Franco e Talíria Petrone

O que vivenciamos no último período eleitoral nos traz a necessidade de uma avaliação, mesmo que breve, sob o ponto de vista feminista das eleições. A derrota nas urnas na campanha majoritária do Rio de Janeiro, tendo como candidatos a prefeito Marcelo Freixo e coprefeita Luciana Boiteux, também demonstrou um avanço no posicionamento da mulher na política. Ao intitular-se coprefeita, Boiteux abriu espaço para o debate sobre o papel de complementariedade que deve assumir a vice nas disputas eleitorais. A vice não pode ser tratada como um detalhe menor e ilustrativo, por isso, a reivindicação do seu protagonismo na política rompeu com o silenciamento típico em relação à vice. Além disso, a campanha majoritária no Rio de Janeiro, por exemplo, foi orientada por um Conselho de Mulheres que debateu a paridade na gestão municipal, o programa e sugeriu estratégias políticas inclusivas de gênero.

É importante ressaltar também que a chegada ao segundo turno no Rio de Janeiro, com apenas 11 segundos de tempo de televisão, é resultado da nossa vitória sobre o domínio do desgoverno do PMDB, além, é claro, de sambarmos na cara do machismo e belicismo da família Bolsonaro. E não foi por acaso que dobramos a bancada de vereadores e vereadora do PSOL na Câmara do Rio de Janeiro. O partido se fortaleceu como uma alternativa viável na cidade, que ocupa o 28º lugar no mundo em desigualdade social, como revelou a ONU em seu 5º Fórum Urbano Mundial.

As expressivas votações das nossas candidaturas feministas, como a de Marielle Franco, no Rio de Janeiro, e a de Talíria Petrone, em Niterói, comprovam que não existe acidente na política. O que existe é o acerto na decisão programática em uma conjuntura política massacrante para as mulheres, além da importância do PSOL-RJ em ceder parcela de seu fundo partidário para apoiar as candidatas com pagamento de advogada, contadora e impressão de panfletos. Há que se reconhecer que nossas campanhas trouxeram com centralidade as demandas feministas, da negritude e da favela e periferia para a disputa eleitoral com qualidade e propostas concretas.

Outras tantas companheiras tiveram protagonismo como candidatas a prefeita em algumas cidades do Rio de Janeiro, enfrentando o machismo e o patriarcado, tais como Beatrice Miller em Maricá, Cristiane Bulhões em São João de Meriti, Leci Carvalho em Nova Iguaçu, Luciana Miranda em Valença, Nereide Tomassini em Sapucaia, Winnie Freitas em Rio das Ostras. Sem dúvida, expressamos vitórias políticas, programáticas e simbólicas. E ao tratarmos de simbolismo, precisamos destacar a nossa candidata travesti Indianara Siqueira, que ficou como terceira suplente na Câmara do Rio de Janeiro.

A nossa “bancada feminista” no Brasil conta com 11 vereadoras eleitas pelo PSOL em importantes cidades como São Paulo e Belo Horizonte. Esse resultado, fruto de intensa mobilização feminista no país, soma-se à inovação de muitas de nossas campanhas que dialogaram com mulheres trabalhadoras nas ruas com mensagens como: “meu corpo, minhas regras”, “maternidade humanizada e direito de escolha”, “creches públicas para todas as crianças”, “políticas de saúde específicas para mulheres negras”, “mais ônibus à noite e iluminação nas ruas”, “redes de proteção contra violência doméstica”, “políticas inclusivas para travestis e transexuais”.

O nosso desafio é construir políticas públicas, com participação popular, que deem conta das necessidades cotidianas das mulheres que vivem nas favelas e periferias das cidades. Mas para isso precisamos nos fortalecer enquanto partido e estabelecer como prioridade as pautas feministas interseccionais, antirracistas e LGBTTs. Manteremos a defesa da ampliação da participação de mulheres de esquerda na política. E o nosso papel é organizar a resistência feminista e avançar no combate ao machismo, à violência doméstica, à cultura do estupro e tantas outras pautas feministas urgentes que dialoguem com as mulheres trabalhadoras, vítimas de tantas opressões sobrepostas. A ousadia há de marcar os nossos mandatos feministas.

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