Marx, Esse Desconhecido

por Vladimir Safatle

Sem dúvida a força de seu pensamento moldou nosso passado recente.

Se me permitem, gostaria de relatar um fato de ordem pessoal. Fiz minha graduação no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo no começo dos anos 1990. A princípio, aquele era, na época, um dos polos de reflexão marxista na universidade.

No entanto, em quatro anos de graduação não tive um curso sequer sobre Marx, mesmo que tivesse cursos de liberais com John Locke ou ainda Hobbes e Stuart Mill.

Se lembro deste anedotário, é para mostrar como Marx é desconhecido, embora muito falado. Amanhã se completarão 200 anos de seu nascimento, o que é uma boa ocasião para se perguntar quem, de fato, é Marx. Pois é certo que um dos eixos maiores de nossa época diz respeito à distância ou à proximidade que estamos dispostos a tomar de Marx.

O que não poderia ser diferente, já que o século 20 fica simplesmente incompreensível sem entender o quanto suas ideias, assim como as leituras de suas ideias, nos definiram. Dificilmente encontraremos um nome que cause tantos arrepios em alguns e entusiasmo em outros. Sendo pró ou contra Marx, é indubitável que a força de seu pensamento moldou nosso passado recente.

Mas aqui começa o paradoxo. Mesmo sendo fonte de uma força enorme, a discussão de seu pensamento é muito menor do que aparenta. Os clichês (economicista, messiânico, necessitarista, autoritário) são legião. No entanto, certamente um retorno a Marx seria proveitoso para nosso tempo.

Pois a radicalidade da experiência prático-teórica chamada Marx vem, entre outros, da junção entre três níveis de exigências que muitos gostariam de dissociar: uma reflexão sobre a liberdade e seu exercício, uma reflexão sobre a emergência de novos sujeitos políticos e sua força revolucionária, uma crítica implacável à vida possível no interior das sociedades capitalistas e em outras formas sociais incapazes de se fundar em estruturas de exploração e violência. O que Marx mostrou é como nenhum destes três níveis de exigência caminham separados.

Que Marx seja um pensador da liberdade e da emancipação, eis algo que vale sempre a pena lembrar. Sua pergunta fundamental não é apenas pelas condições sociais para a realização da liberdade, já que não posso ser livre em uma sociedade não livre, mesmo que acredite que me exilar em minha interioridade seja possível.

A questão de Marx gira em torno de uma crítica implacável a outros modelos de liberdade, em especial esse no interior do qual liberdade e propriedade estão associados. Pois temos a ilusão de podermos ser livres quando somos proprietários de nós mesmos, quando possuímos a nós mesmos.

A base material, jurídica e política das sociedades capitalistas se encontra na generalização da estrutura da propriedade, até mesmo para as relações a si. Mas uma liberdade sem possessão é a única liberdade concreta real, lembrará Marx.

Essa liberdade exige uma transformação radical dos modos de reprodução material da vida. Ela exige que a atividade humana seja liberada da forma do trabalho produtor de valor, trabalho que faz da atividade uma ação unidimensional, disciplinar e alienante.

Ela exige que as relações à natureza deixem de ser uma possessão para ser um “metabolismo”. Ela exige que as relações humanas não sejam mais pensadas como a relações entre proprietários que passam entre si contratos. Ao movimento dessa transformação, Marx dá um nome: comunismo.

Essa experiência comunista, experiência da emergência de um comum que não será posse de ninguém exige a reflexão sobre como sujeitos que não tem mais nada que os vincule à vida mutilada das sociedades capitalistas afirmam seu desejo de transformação e agem de forma revolucionária.

Uma revolução não apenas da estrutura do poder e de sua base econômica, mas da forma do exercício do poder e de desativação da exploração econômica.

Um dos teóricos fundamentais do pensamento econômico pensa, na verdade, em como permitir a emergência de uma sociedade pós-econômica, para além das injunções disciplinares que fizeram da economia a verdadeira forma de produção de subjetividades. O que um retorno a Marx nos permitiria seria repensar a importância de uma experiência comunista para nossa época.

Originalmente publicado na Folha de São Paulo

PSOL Carioca

Site oficial do Diretório Municipal do Partido Socialismo e Liberdade da Cidade do Rio de Janeiro #50

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