Das ruas ocupadas da Maré para a Assembleia

Originalmente publicado em Valor Econômico – 27/07/2020

Por Rodrigo Carro

Renata Souza havia acabado de chegar em casa, no Complexo da Maré, na noite de 14 de março de 2018 quando recebeu a ligação de um jornalista no seu celular. O repórter queria saber se ela confirmava o assassinato da vereadora Marielle Franco, de quem Renata era chefe de gabinete naquela época. “Não, eu estava com ela agora. Impossível. Isso é mentiira”, respondeu ela. No decorrer das horas seguintes, uma sucessão de chamadas – a maior parte delas de jornalistas – acabou por confirmar a notícia da morte de Marielle e seu motorista Anderson Gomes.

O crime marcou uma guinada na trajetória política de Renata, que levou a jornalista e doutora em comunicação a ser eleita em 2018, com 63.937 votos, para uma vaga na Assembleia Legislativa fluminense. “Eu estava na minha vida numa construção muito acadêmica”, lembra a pré-candidata do Psol à Prefeitura do Rio de Janeiro. “Com o assassinato da Marielle, a prioridade muda porque vem a carga de responsabilidade política e coletiva que a gente tinha construído juntas. Vêm as pessoas me falar: ‘Renata, a gente precisa de você também para fazer essa disputa [eleitoral]’.”

Antes de concorrer a uma vaga no Legislativo, Renata, de 37 anos, já acumulava longa militância em movimentos sociais. Foram 15 anos percorrendo as ruas e vielas da Maré como repórter do jornal comunitário “O Cidadão”. “A Maré tem 17 favelas. Diferentemente do que as pessoas pensam, que é uma grande massa homogênea, não é”, frisa a parlamentar. Nas páginas do periódico, o debate sobre segurança pública pela ótica dos direitos humanos era uma constante.

Foi por meio da militância social que Renata conheceu o então deputado estadual Marcelo Freixo (Psol). “O primeiro congresso do Psol a gente fez na praça do Parque União, na Maré, em 2006. Eu e a Marielle”, recorda a pré-candidata. Trabalhou com Freixo por dez anos, entre 2007 e 2017. Depois, passou a atuar no gabinete de Marielle Franco – também nascida e criada na Maré.

Em junho, Freixo anunciou Renata como pré-candidata à Prefeitura do Rio em 2020. Adversário de Marcelo Crivella no segundo turno das eleições municipais de 2016, Freixo desistiu em maio da corrida à prefeitura alegando dificuldades para consolidar uma aliança ampla de esquerda.

“Já estava difícil com o nome do Freixo”, admite Renata, que vê a indicação como pré-candidata como uma reafirmação das bases do Psol. “Meu nome é um nome que traz a essência dessa construção da base a partir da favela, da periferia, da construção das mulheres pretas nesse lugar”. Seu pai nasceu no Complexo do Alemão e a mãe, na Maré.

O cotidiano de Renata na favela – com aulas suspensas por causa de tiroteios e água contaminada saindo das torneiras de casa – está presente não só no seu discurso político. Concluída em 2017, a tese de doutorado dela trata da militarização da segurança pública a partir da ocupação da Maré pelo Exército durante a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

“Minha trajetória educacional não tem nada a ver com meritocracia, porque [para isto] é preciso ter oportunidades e condições iguais. Pelo contrário, eu sou a exceção que confirma a regra da exclusão”, argumenta a deputada estadual. Renata foi a primeira tanto na família paterna como na materna a cursar o ensino superior.

Aluna do pré-vestibular comunitário da Maré durante três anos (“quase uma graduação”), Renata foi admitida pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em 2003, graças a uma parceria entre o cursinho e a instituição de ensino. A bolsa integral cobria até o valor do transporte e a alimentação. “Tinha todo um choque educacional e cultural. A Gávea, para mim, era outra cidade”, diz a pré-candidata sobre o bairro da zona sul onde está situada a universidade.

Na análise dela, as eleições deste ano serão um “teste de fogo”, tanto no Rio como no restante do país. “Essas eleições vão ser essencialmente nacionalizadas. Justamente porque todo mundo já experimentou o que é o bolsonarismo no poder”, diz. “O bolsonarismo, dito incorruptível, tem prazo de validade”. Embora o Psol esteja em negociação com o PCdoB, Renata vê chances de sua candidatura atrair eleitores fora do espectro político da esquerda. Ela lembra que o vereador Tarcísio Motta (Psol) chegou em terceiro na corrida ao governo do Rio em 2018.

PSOL Carioca

Site oficial do Diretório Municipal do Partido Socialismo e Liberdade da Cidade do Rio de Janeiro #50

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