MILITANTES INDEPENDENTES

1. Coerência política e cultura partidária

Vivemos uma profunda crise de representatividade, haja vista as Jornadas de Junho de 2013 e os protestos que seguiram. Basta panfletar em época de eleições ou conversar com as pessoas para perceber o desinteresse contínuo pela política tradicional. O número de votos brancos e nulos segue altíssimo nos últimos pleitos, superando por exemplo em números absolutos a votação de Marcelo Crivella para a Prefeitura do Rio de Janeiro. A baixa adesão acontece não apenas no Brasil, como também em países em condições socioeconômicas mais favoráveis no capitalismo global, como os Estados Unidos e a Europa ocidental.

Mas não se trata de uma alienação repentina das pessoas. Por um lado, há um progressivo distanciamento entre representantes e representados. Com a percepção cada vez mais ampla da sociedade sobre a influência do lobby e das negociatas nas decisões, a política com “p” minúsculo consolida o poder nas mãos de poucos aos olhos de muitos. Assim se impôs uma lógica de governabilidade guiada pelos acordos de bastidores, usando cargos e grandes quantias de dinheiro como moeda. Esse processo é tolerado com mais facilidade em países com acentuada desigualdade social como o Brasil, em que a distribuição de renda não é feita de forma justa e as relações de poder são estruturantes e territoriais.

Por outro lado, esta falta de interesse é um sintoma da falta de alternativas políticas e sistêmicas ao mundo pós-surgimento da Internet. A sensação é de que o modo como a Nova República foi operado na última década não consegue mais dar conta das principais demandas populares. Nenhuma força e nenhum movimento conseguiram apresentar projetos satisfatórios e suficientes à maioria da sociedade brasileira, a ponto de criar um ambiente para que surjam outras possibilidades. Ao mesmo tempo, lacunas históricas do nosso país permanecem sem resolução e direitos tidos como garantidos estão sendo retirados.

Durante os últimos anos, o bolsonarismo se constituiu como o movimento mais capaz de vocalizar e capitalizar votos a partir do sentimento de descontentamento com o modus operandi vigente. Isso foi feito dando prioridade a pautas centrais no debate público, como corrupção e violência, além de contar com uma máquina de disparo de falsas notícias e apoio de igrejas evangélicas neopentecostais espalhadas em grande número por todo o país. No entanto, ao tomar posse, desde 2019, o governo bolsonarista assumiu as mesmas práticas daqueles que sempre mandaram e retira direitos sociais conquistados duramente pelo povo. A estratégia atual da esquerda está longe de conseguir enfrentá-lo como deveria, pois foge das questões essenciais na vida das pessoas e não atua na raiz das sustentações sociais do bolsonarismo.

Por isso, entendemos que um partido socialista e libertário só fará sentido como alternativa para essa grande maioria se for em primeiro lugar capaz de incorporar uma cultura e uma estrutura coesas e coerentes com seus fins. Ou seja, o conjunto de hábitos do PSOL e a forma como o partido se organiza deve expressar a sociedade que é almejada. Assim nós construímos a credibilidade e a legitimidade necessárias dentro para fazer as reivindicações que queremos fora. Pois é importante cultivar relações de confiança e garantir uma ferramenta de luta realmente acessível às pessoas.

De que formas decidimos para construir um mundo socialmente igual, humanamente diferente e totalmente livre? Como nos estruturamos? Como lidamos com opressões? Como nos relacionamos? Como garantimos a justiça socioambiental nas esferas internas? Como somos inclusivos nos processos? As respostas a perguntas como essas devem balizar a existência e o funcionamento do nosso partido. Ele não deve calcar-se nas formas partidárias tradicionais, mas desvenciliar-se do lugar comum da política que tem afastado as pessoas.

Essas perguntas sobre princípios vão se desdobrar em questões mais próximas e concretas. Desafios aos quais nossa práxis é colocada diante recorrentemente. Por exemplo, quais os critérios usamos para promover a igualdade racial e social na distribuição do fundo partidário? Como nós garantimos que cada militante seja escutado e possa se expressar respeitando e sendo respeitado? Como estamos fortalecendo a democracia brasileira através da governança e da forma como o partido decide? Quais são as responsabilidades condicionais aos poderes?

Se o desafio da participação universal em um espaço físico num determinado período de tempo parece impossível, cabe criar possibilidades, como mecanismos digitais, para incluir mais pessoas nas tomadas de decisão. A criatividade é nossa grande aliada: podemos gerar ideias revolucionárias sobre como resolver estes problemas de uma forma nossa. Não podemos subestimar a capacidade e a potência de nós, pessoas que construímos este partido, em resolvermos problemas de forma coletiva e inclusiva.

Para isso, é preciso que as cadeias de estímulos formais e não-formais do partido estejam em sintonia. Ou seja, nossa preocupação tem que ir além de garantir as normas e o cumprimento do estatuto. Ela precisa estar no cotidiano da militância partidária, incentivando práticas desejadas. Cada militante, dirigente e parlamentar tem responsabilidade sobre esse todo – a cultura partidária. A ordem daqueles que têm mais responsabilidades começa por aqueles que detém mais poder de decisão.

Transparência gera confiança

A falta de confiança é, ao mesmo tempo, causa e consequência do distanciamento entre representantes e representados. Nossa intenção é oposta: diminuir a distância a ponto dela não existir mais. E assim tecermos relações fortes e confiáveis. Mas para começarmos a mudar esse jogo, é imprescindível cultivarmos a transparência no seu sentido mais amplo. Desde a clareza sobre os critérios para escolhas políticas importantes, até a informação completa sobre como o dinheiro é utilizado.

Atualmente, um militante independente tem dificuldades em saber, por exemplo, quais são os critérios para a contratação de assessores em mandatos do PSOL, como os dirigentes prestam contas para a base e como o fundo eleitoral é distribuído. Acreditamos que isso aconteça por um gargalo de comunicação estrutural, mas principalmente por uma cultura não transparente. Fazer com que uma informação chegue em todo mundo é um desafio para qualquer organização. Mas é também responsabilidade de quem quer um governo mais justo.

A longo prazo, uma cultura de dados abertos a militantes e processos inclusivos traz benefícios relevantes. Se um dirigente ou representante presta contas com recorrência à base, se os tesoureiros tornam acessíveis as informações financeiras e se os critérios políticos são sempre objetivos, o cuidado e a atenção com essas questões ficam redobrados. E os militantes se sentem mais pertencentes, capazes de participar melhor das principais decisões relativas ao partido.

É de extrema importância que possamos financiar nossa luta, produzir eventos e materiais, além de realizar melhor tarefas essenciais. Sabendo como o partido usa o dinheiro e podendo até mesmo participar dessas decisões, aumenta a probabilidade de mais pessoas doarem e das doações serem maiores. Se lembramos que “quem paga a orquestra escolhe a música” e reivindicamos o financiamento público de campanhas, devemos garantir que doadores possam também decidir. Ou pelo menos estar 100% seguros e cientes sobre a gestão financeira partidária. Pensem conosco: se um militante ou filiado percebe que ele não recebe para lutar, não é normal que se incomode com outros sejam remunerados, sem saber os critérios? Até que ponto não estamos acentuando injustiças e inibindo a participação de pessoas que precisam trabalhar para sobreviver?

Por isso, é fundamental que filiades, militantes e doadores possam acessar as informações sobre os custos e as receitas do partido, como eventos, materiais, aluguéis e salários. A prestação de contas sempre foi um dos grandes diferenciais do PSOL RJ para a população fluminense, ou esquecemos as sextas no Buraco do Lume? Informações periódicas do trabalho e das finanças relacionadas, origem e destino do dinheiro, entre outras, devem virar cultura no partido. É através de rituais que podem ser o Buraco do Lume, ou uma prestação de contas por carta, ou um sistema de login do usuário com os dados abertos, que garantimos na prática a transparência. Formas não faltam e não são caras.

A vontade e a intenção da transparência se manifestam de formas pontuais: em solicitações de ajuda de custo e transporte para companheires com necessidade e no autofinanciamento de núcleos do partido. Mas elas precisam se tornar uma política transversal e recorrente. Certamente uma militância tratada com esse grau de atenção e abertura sentirá vontade de participar, ruídos e conflitos serão mais raros, e nossa voz será ecoada por mais pessoas. Em última mas não menos importante instância, fortalecemos a luta por uma sociedade humanamente diferente, socialmente igual e totalmente livre.

2.   Comunicação ampla e eficiente

Quando falamos em ecoar vozes, precisamos entender o que queremos dizer, como e para quem. Afinal, a luta política não conquista sem uma comunicação eficiente. A comunicação é entendida aqui como um fenômeno 360°, que acontece em ciclos contínuos. Como já salientamos anteriormente, o crescimento se dá a partir de um lugar e em determinado contexto. Por isso, a coesão e a coerência são princípios fundamentais.

Mas também é essencial que saibamos com quem falamos: quem são nossos principais públicos hoje (simpatizantes, apoiadores, filiados, militantes)? Para fazer essa análise ser útil, é necessário sinceridade e honestidade. Estarmos conscientes das características de comportamento e hábitos das pessoas que compõem hoje o PSOL é o ponto de partida para conseguirmos dialogar e, mais que isso, nos conectar com elas.

Para falarmos “com os diferentes e os indiferentes”, como costumam dizer nossos candidatos em época de eleição, precisamos saber antes quem são os iguais e o que os iguala. Em outras palavras, o passo primeiro é agitar e mobilizar as bases. Isso não acontece apenas com palavras de ordem, mas com uma cultura partidária inclusiva e participativa. Aqui entra a função principal da comunicação interna.

Os filiados e militantes precisam ser informados ativamente sobre as ações recorrentes do partido, os acontecimentos dos mandatos e o calendário dos eventos que ocorrerão. Todo esse trabalho hoje tem sido feito por uma força tarefa, muito esforçada, mas ainda não suficiente, de alguns filiados, e membros de núcleos e setoriais.

Devemos levar mais a sério a importância da comunicação para a mobilização da militância, e principalmente a comunicação digital, como e-mails, WhatsApp, Telegram e redes sociais. Comunicação é a base da possibilidade de convivência em sociedade. E a comunicação digital se tornou um dos pilares da vida social contemporânea. Se não estivermos presentes nos celulares das pessoas simplesmente não existiremos para muita gente, ou existiremos em menor grau.

Precisamos nos comprometer em informar, mas também em ouvir, pelos mesmos canais, os filiados que por muitos anos não sabem como estreitar essa relação junto ao partido, fazendo com que muitos lutem isolados, mesmo que com enorme vontade de somar ao PSOL.

Precisamos otimizar os processos para destravar a entrada e permanência de militantes no PSOL. Por exemplo, reduzir a distância de tempo entre a pessoa que preenche uma ficha de filiação e a oficialização disso. Por que todo novo filiado não recebe uma mensagem de confirmação com convite para a próxima reunião do núcleo do seu bairro ou setorial de interesse? Para isso, será decisivo contar com uma equipe de comunicação dedicada. Essa política de comunicação pode ser viabilizada por meio da verba recebida na plataforma de financiamento coletivo recorrente do PSOL Carioca.

Precisamos entender que o cenário mudou, as pessoas mudaram, a luta não é mais travada com as mesmas armas. A rua e o digital se complementam, um não vive mais sem o outro, e o principal resultado é o ganho de escala, chegando em mais e mais pessoas, mobilizando e unindo através da tecnologia. Se a Cambridge Analytica traça estratégias sofisticadas com bilhões de dólares, como nós podemos explorar as ruas e as redes com o que eles não tem?

3. Participação aberta a voluntários – construção coletiva real

Como o partido recebe hoje alguém que se coloca à ajudar de forma voluntária?

Quem passa por essa experiência encontra obstáculos inimagináveis. Primeiro por não termos definido como atender à essa demanda, segundo porque não há sempre pessoas para receber e acolher um recém-chegado. Terceiro porque a participação interna no diretório, dividida em correntes e mandatos, em muitas das vezes os dois, transforma os participantes em um grupo bastante coeso, e assim enxergamos que gera uma certa animosidade aos “de fora”. Essa separação é prejudicial, pois faz parecer que o partido só pertence aos “dirigentes”, que são apenas eles que decidem, enquanto os demais devem apenas realizar tarefas.

Mas repetir as explorações do capitalismo, ainda que em outro formato, não nos interessa enquanto PSOL. Certo?

Por isso, precisamos urgentemente abrir o partido aos militantes independentes e voluntários. Isso significa mudar práticas habituais e incorporar novas. Facilitar, por exemplo, que filiados com alguma história no PSOL possam contribuir em tarefas mal atendidas e altamente ineficientes. Realizar, por exemplo, eventos de apresentação do partido com a ajuda desses recém-chegados. Promover, por exemplo, ações de rua sobre lutas comuns ao partido com produção colaborativa dos militantes.

Para isso, a criação de processos e a otimização de outros, além do estabelecimento de responsáveis por tarefas desses processos, precisam ser priorizados. Por exemplo, como seria um processo de boas vindas ao PSOL? Quem receberia esta pessoa, em que momentos, e quais são os pontos de contato dela com o partido? Existem ferramentas de gestão de projetos que são gratuitas – Asana e Trello, por exemplo – e viabilizam parte disso.

4. Conclusão

Coerência: incorporar uma cultura e uma estrutura coesas e coerentes com seus fins. Ou seja, o conjunto de hábitos do PSOL e a forma como o partido se organiza deve expressar a sociedade que é almejada.

Transparência para fortalecer laços: prestação de contas ampla como forma de gerar maior confiança entre partido e filiados, e assim tecermos relações fortes e confiáveis.

Comunicação eficiente como principal ferramenta: estamos na era da informação, temos que usar a tecnologia ao nosso favor, o cenário mudou, as pessoas mudaram, a luta não é mais travada com as mesmas armas, a rua e o digital se complementam, não apenas para informar mas principalmente para ouvir os filiados.

Abertura ao voluntariado: Chega de nos fecharmos a quem quer construir conosco, com muitos cuidados, obviamente, mas com amistosidade e não animosidade.

Assinam esta contribuição:

1. Julia Boardman Cavalcanti
2. Giovanni Gennaro Pedrosa Da Silva Capano
3. Luiz De Souza Machado Neto
4. Matheus Maia Vinhas Barreto
5. Maria Fiszon Cerqueira
6. Thais Ferreira
7. Thassio Gonçalves Ferreira
8. Helena De Almeida Rocha Da Silva
9. Laís Dos Santos Silva
10. Gustavo Bueno
11. Rafael Pollo Flores De Sá
12. Valéria Alencar
13. Carlos Alberto Moutinho Saldanha De Vasconcellos
14. Luciana Araujo Da Silva Pereira
15. Gláucia Marconato
16. Hermano Castro
17. Cauê Lemos Gatto Ferreira
18. Leonardo Cardoso Leal
19. Gabriel Lindenbach
20. Juliana Schmitz
21. Igor Kottwitz
22. João Pedro Passos De Queiroz
23. Rudrá Balmant
24. Carlos Schramm
25. Nina Carvalho Saraiva
26. Danilo Martins Fidélis
27. Daniela Lopes Novo
28. Rodrigo Luis Veloso
29. Raphael Barreiros De Farias
30. Niedja Guedes
31. João Bosco Buscacio
32. Eneida Gomes De Sousa Melo
33. Hugo Gomes Ottati De Menezes
34. Alex Viana Dos Santos
35. Carmelena Nassar De Paiva Pereir
36. Ilda Saldanha Torres
37. Carlos Takashi Jardim Da Silveira
38. Adriana De Oliveira Giglio
39. Maria Rita Aguilar Nepomuceno De Oliveira
40. Renan De Barros Carvalho Corrêa