Contribuição Setorial Religioso

1. O PSOL tem como um de seus horizontes de luta o fortalecimento das periferias e da população mais oprimida, que é movida por uma gama considerável de crenças e cultos. É de suma importância aproximar-se dessa população e discutir a aproximação dialética com essas manifestações religiosas internas e específicas dos territórios.

2. O Setorial de Liberdade Religiosa luta pelo respeito às diversas crenças e cultos e traz como contribuição a necessidade de aprofundamento da discussão no partido sobre a relação entre as religiões e a política, as construções ideológicas e sua materialização no cotidiano, bem como a forma como a religião influi nessa construção e se manifesta nos discursos populistas e conservadores.

3. Entendemos que para diminuir a distância entre o discurso político e ideológico do PSOL e as periferias e populações que sofrem na ponta os efeitos do capitalismo, uma responsabilidade de diálogo com essas crenças e cultos é fundamental. É perceptível que muitas das relutâncias dessas populações em relação à política do PSOL têm um ranço em questões intrínsecas à religiosidade e muitas vezes ao conservadorismo, e certas vezes até mesmo um radicalismo, de certos espaços e agentes religiosos. No entanto, há espaço para articulação e diálogo, basta entendermos coletivamente seus respectivos caminhos e dinâmicas.

4. Em muitos espaços, principalmente territórios abandonados, os centros religiosos são, para além de um ambiente de expressão das crenças, também um ambiente onde a população encontra apoio para minimizar, e algumas vezes solucionar, muitas das expressões de desigualdade social e econômica que as atinge. O que fortalece a ligação entre a população e as religiões, que tornam-se assim também um ambiente de ação política e social. Por isso, é imprescindível aprendermos a disputar e discutir como alcançar esses espaços.

5. Não há ação apolítica no mundo. Muitos religiosos que foram perseguidos, presos e torturados na ditadura, em nome de sua fé, estavam fazendo tanta política quanto aqueles que tinham suas crenças alheios e indiferentes à ditadura ou mesmo apoiando-a formalmente. Não há neutralidade! A questão é agir com transparência, ética, respeito à autonomia individual, à diversidade e às liberdades democráticas.

6. O Setorial de Liberdade Religiosa defende sistematicamente o Estado laico, isto é, aquele que não reivindica para si uma determinada confissão religiosa e resguarda a liberdade de crenças e da não crença. Entendemos que é justamente o Estado Laico que garante a possibilidade das expressões e manifestações religiosas.

7. Em alguns países do mundo, as expressões religiosas diversas são cerceadas na sua liberdade de culto, justamente porque estes Estados são fundamentalistas religiosos e respeitam apenas a crença imposta pelo próprio Estado. É evidente, portanto, o quanto o caráter laico do Estado é requisito indispensável à democracia.

8. O capitalismo é estruturalmente perverso e é necessário uma luta cotidiana, nos mais diversos campos, pela construção de um socialismo libertário, radicalmente democrático, que zele pelas liberdades e pela relação equilibrada entre o ser humano e a natureza.

9. Acreditamos que a dignidade humana, a busca pela construção da justiça, o apoio aos oprimidos e a denúncia de todas as formas de opressão, exploração e violência, devem ser um norte para esse diálogo.

10. Muitas crenças religiosas tem uma mensagem centrada na radicalidade do amor e se limita e se subtrai a um moralismo individualista, hipócrita e bélico. Essas vertentes da religiosidade apenas instrumentalizam a intolerância, o fundamentalismo e a pretensa institucionalização das crenças. Pensamos que a partir desta mesma mensagem de afeto e amor podemos suplantar e superar ideologias conservadoras e moralistas.

11. É importante ressaltar que existem pessoas que na experiência de suas crenças, até mesmo com o apoio destas, tem buscado se opor ao conservadorismo, e ainda em minoria, não reafirmar formas de opressão, exploração e violência, como o machismo, a LGBTfobia e o racismo. Pessoas que já não se sentem representadas, mas envergonhadas por conta de ações conservadoras que brincam com o sofrimento do povo, sacralizam estruturas injustas, focam seus discursos em uma moral que não toca nem acolhe os dramas mais profundos da humanidade. Entes religiosos que silenciam-se diante da desigualdade social, do problema crônico da pobreza, da miséria e da fome, da exploração do trabalho infantil, da violência contra mulheres e a população LGBT, do extermínio sistemático da juventude pobre, das populações tradicionais como indígenas e quilombolas, da devastação predatória dos recursos naturais.

12. Entendemos que o PSOL é um espaço político-partidário que deve alavancar lutas anticapitalistas e se responsabiliza por uma agenda de direitos humanos centrais para a liberdade religiosa.

Assinam:

Ana Aline Muniz Ramalho
Beni Iachan
Daniel Cohen
Giulia Tucci
Guilherme Cohen
Gustavo Bueno
João Bosco Buscacio
José Luis Fevereiro
Julia Boardman Cavalcanti
Leonardo Luiz Cordeiro Ferreira da Silva
Maria Fiszon Cerqueira
Patricia da Silva Cordeiro Ferreira
Rafaela A. Carvalho
Raphael Godoi
Rodrigo Luis Veloso